Milei volta a chamar Lula de “ladrão” e aprofunda crise diplomática entre Brasil e Argentina

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Novas declarações do presidente argentino levam Itamaraty a convocar embaixadores e classificar episódio como “sem precedentes” na relação bilateral

A relação entre Brasília e Buenos Aires voltou a se deteriorar neste início de agosto. O presidente da Argentina, Javier Milei, reiterou no domingo (2) as acusações sem evidências contra o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “ladrão” e “corrupto”, uma semana depois de suas declarações provocarem uma crise diplomática entre as duas maiores economias da América do Sul. O episódio se soma a uma sequência de atritos entre os dois governos ao longo do ano. O TEMPO

A declaração mais recente foi dada em entrevista a uma emissora argentina. O presidente da Argentina voltou a atacar seu homólogo brasileiro no último domingo, chamando-o de “ladrão” e “corrupto”, em declarações que reforçam as críticas já feitas na semana anterior. Milei chamou Lula de “ladrão” três vezes seguidas antes de desenvolver as críticas e acusações que já havia feito contra o presidente brasileiro em ocasiões anteriores. Avante MundoO TEMPO

Origem do atrito e o contexto da convenção em São Paulo

O episódio atual tem raízes em um evento político realizado em território brasileiro. O ataque ocorre uma semana depois de Milei ter vindo ao Brasil e proferido ofensas ao presidente brasileiro durante a convenção que oficializou a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro, do PL. Naquela ocasião, em São Paulo, Milei fez as acusações sem citar Lula nominalmente, durante o evento de oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro para enfrentar o petista nas eleições de outubro. Diário do NordesteO TEMPO

Além das acusações de corrupção, o presidente argentino também trouxe à tona um episódio político da própria disputa eleitoral argentina. Milei repetiu, sem apresentar provas, uma acusação feita pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro de que Lula teria destinado recursos para favorecer Sergio Massa, adversário de Milei nas eleições presidenciais argentinas de 2023. O comentário ampliou ainda mais o desconforto diplomático entre os dois países. Itapetinga24horas

Itamaraty reage e convoca embaixadores

A resposta do governo brasileiro veio rapidamente após as primeiras declarações do presidente argentino. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil convocou o embaixador argentino Daniel Raimondi em Brasília e pediu consultas ao seu próprio embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, medidas que sinalizam, na linguagem diplomática, uma grave crise bilateral. O chanceler brasileiro classificou o episódio em termos pouco usuais para as relações entre os dois países. Revista Fórum

O chanceler Mauro Vieira classificou a situação como “sem precedentes” e “grave”, enquanto Lula, após uma reação inicial mais irônica, endureceu o discurso e rejeitou interferências externas na política do país. A convocação para consultas do embaixador brasileiro na Argentina ocorreu formalmente em razão “das ofensas proferidas” pelo presidente argentino, enquanto o Brasil também convocou o embaixador argentino em Brasília para manifestar seu “repúdio” e pedir explicações pelas “agressões” cometidas contra Lula e contra o ministro do STF Alexandre de Moraes. Revista FórumDiário do Nordeste

Como a Argentina reagiu à escalada

Do lado argentino, o discurso oficial buscou equilibrar a retórica do presidente com sinais de contenção diplomática. O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, ressaltou que, da parte de seu governo, não há qualquer possibilidade de romper relações com o país vizinho e principal parceiro comercial, e que ao longo da semana a Argentina tentou reduzir a tensão provocada pelo incidente diplomático. Ainda assim, Milei manteve o tom agressivo nas declarações mais recentes. O TEMPO

Questionado sobre a intensidade de suas críticas ao presidente brasileiro, Milei defendeu publicamente sua postura. “Você não acha agressivo quando alguém rouba de você? Chamar um ladrão de ladrão é muito menos grave do que o ato de roubar em si. Ele foi libertado devido a um erro processual, não porque seja inocente. Portanto, ele é um ladrão e corrupto”, insistiu o presidente argentino. O próprio Milei acrescentou que age dessa forma porque se considera um defensor dos ideais de liberdade, referindo-se às suas críticas frequentes a governos de esquerda e de centro-esquerda na América Latina. Avante MundoAvante Mundo

O pano de fundo jurídico das acusações

As acusações de Milei fazem referência direta ao histórico judicial de Lula, ainda que os fatos tenham desfecho diferente do que o presidente argentino sugere. Lula ficou preso por 580 dias, entre 2018 e 2019, após ser condenado por corrupção em processos da Operação Lava Jato, condenações que foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por questões processuais e pela conclusão de que o então juiz Sergio Moro atuou com parcialidade. Esse desfecho judicial é frequentemente omitido ou minimizado nas falas do presidente argentino. Avante Mundo

Com a repercussão do episódio ainda em curso, o desdobramento das relações entre Brasília e Buenos Aires deve seguir sendo acompanhado de perto nas próximas semanas, especialmente em um momento em que o Brasil já vive uma intensa disputa eleitoral interna, marcada pela corrida presidencial rumo a outubro. Analistas de política externa avaliam que episódios como esse tendem a ganhar ainda mais peso durante períodos de campanha, quando declarações de líderes estrangeiros passam a ser incorporadas ao debate político doméstico.

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