Inteligência artificial acelera produção publicitária no Brasil e reduz custos, diz executivo

Nicola Valseri
Nicola Valseri

CEO da WPP Production Brasil afirma que projetos podem ser realizados até 80% mais rápido e com redução de até 50% nos custos; tecnologia também amplia personalização de campanhas e muda funções dentro das equipes criativas.

A inteligência artificial está deixando de ocupar apenas uma função experimental na publicidade para modificar diretamente a maneira como campanhas são planejadas e produzidas no Brasil. Em entrevista publicada nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, Rafael Nasser, CEO da WPP Production Brasil, afirmou que o uso intensivo da tecnologia já permite executar determinados trabalhos até 80% mais rápido e com custos até 50% menores, dependendo do projeto e da reorganização do processo produtivo. (UOL)

Os números foram apresentados durante participação no podcast Deu Tilt, do UOL. Segundo Nasser, o principal impacto da inteligência artificial não está simplesmente em adicionar novas ferramentas ao software usado por designers, produtores e publicitários. A transformação acontece quando as empresas redesenham o fluxo de trabalho e passam a utilizar IA em diferentes etapas da produção, preenchendo lacunas técnicas e acelerando atividades que anteriormente consumiam dias de trabalho. (UOL)

O executivo também argumenta que a adoção da tecnologia altera a própria estrutura das campanhas. Sistemas automatizados podem acompanhar informações em tempo real, produzir variações de peças e permitir adaptações em uma escala difícil de ser alcançada exclusivamente por equipes humanas. O resultado é um modelo no qual criação, produção, mídia e estratégia passam a funcionar de maneira cada vez mais integrada. (UOL)

Projetos de uma semana podem ser concluídos em uma tarde

Um dos exemplos apresentados por Nasser envolve trabalhos que anteriormente demandavam cerca de uma semana e que, com ferramentas de inteligência artificial incorporadas ao processo, podem em determinadas circunstâncias ser desenvolvidos e testados em uma tarde junto ao cliente. O ganho não ocorre automaticamente: segundo o executivo, é necessário rever os processos e escolher ferramentas adequadas para cada necessidade. (UOL)

É nesse contexto que aparecem as estimativas de até 80% de redução no tempo de execução e até 50% de diminuição no custo. Esses percentuais não significam que toda campanha publicitária terá obrigatoriamente esse ganho. Eles representam resultados que, segundo Nasser, podem ser alcançados em atividades e projetos nos quais a tecnologia é empregada de maneira adequada. (UOL)

A mudança também afeta a formação tradicional das equipes. Em vez de depender exclusivamente de profissionais especializados em cada pequena etapa da produção, pessoas criativas podem utilizar diferentes ferramentas de IA para complementar habilidades que não dominam totalmente. Isso pode permitir que grupos menores desenvolvam protótipos, testem ideias e façam ajustes em intervalos muito mais curtos.

Campanha chegou a produzir 50 mil versões em uma semana

A escala proporcionada pela inteligência artificial aparece com ainda mais clareza em campanhas personalizadas. Durante a entrevista, Nasser citou uma ação na qual foram produzidas 50 mil versões personalizadas de hambúrgueres em apenas uma semana de comunicação. As variações consideravam elementos relacionados ao perfil do público, como preferências e interesses. (UOL)

O exemplo demonstra uma diferença importante entre a produção publicitária tradicional e o modelo que começa a surgir com a IA. Em vez de produzir somente uma peça principal e algumas adaptações, as empresas podem trabalhar com milhares de combinações e versões destinadas a públicos diferentes.

Isso abre espaço para campanhas muito mais dinâmicas. Uma mesma estratégia pode ter imagens, mensagens, formatos ou outros componentes modificados conforme características do consumidor e contexto da comunicação.

O desafio passa a ser controlar essa escala. Se uma campanha possui dezenas de milhares de variações, torna-se inviável para uma pessoa verificar manualmente cada resultado. Por isso, a expansão da automação também exige sistemas de supervisão e critérios claros para determinar quais decisões podem ser automatizadas e quais precisam permanecer sob controle humano.

Publicidade pode responder aos acontecimentos em tempo real

Outra transformação apontada pelo executivo está relacionada à velocidade com que campanhas podem reagir aos acontecimentos. A inteligência artificial permite imaginar sistemas capazes de acompanhar a comunicação e realizar personalizações continuamente, ajustando determinadas peças conforme mudanças no comportamento do público ou no ambiente de mídia. (UOL)

Essa capacidade reduz a distância entre planejamento, criação e execução. Tradicionalmente, uma campanha passa por etapas relativamente definidas: estratégia, desenvolvimento criativo, produção, aprovação e distribuição. Com sistemas automatizados, parte dessas atividades pode ocorrer simultaneamente.

Na prática, isso aproxima áreas que historicamente funcionavam de maneira separada. Estratégia, mídia, produção e criação passam a compartilhar dados e ferramentas em tempo real, tornando a campanha mais adaptável.

Por outro lado, a velocidade aumenta a responsabilidade das empresas. Quanto mais rápido um sistema consegue produzir e distribuir conteúdo, maior é a necessidade de estabelecer mecanismos de aprovação, segurança e supervisão antes que um erro seja reproduzido em larga escala.

IA já aparece em campanhas de grandes marcas

A utilização da tecnologia não está restrita a experimentos internos. Segundo Nasser, trabalhos realizados para grandes marcas já incorporam inteligência artificial na produção de imagens, áudio e até movimentos de câmera. Em determinadas situações, o consumidor pode assistir ao conteúdo sem perceber quais partes foram produzidas ou modificadas com auxílio de sistemas generativos. (UOL)

O executivo mencionou experiências envolvendo campanhas para empresas como Oracle, LG e Motorola. Isso demonstra como a IA generativa está entrando em produções comerciais de grande escala e deixando a fase na qual aparecia principalmente como demonstração tecnológica. (UOL)

Esse avanço tende a tornar cada vez mais difícil separar visualmente uma produção convencional de outra que utilizou inteligência artificial. Em muitos projetos, inclusive, os dois métodos podem coexistir: filmagens tradicionais podem receber elementos sintéticos, enquanto cenas geradas digitalmente podem ser combinadas com materiais captados por câmeras.

Uso corporativo exige atenção aos dados

A redução de custos e o aumento da produtividade, entretanto, vêm acompanhados de questões jurídicas e de segurança. Nasser chamou atenção especialmente para a utilização de ferramentas de inteligência artificial por profissionais que trabalham com informações confidenciais de clientes.

Segundo ele, grandes campanhas exigem atenção aos contratos mantidos com fornecedores de tecnologia. O problema ocorre quando dados de clientes, imagens ou materiais comerciais são inseridos em ferramentas sem garantias contratuais adequadas sobre tratamento e proteção das informações. (UOL)

Por isso, o executivo defende que grandes organizações utilizem contratos empresariais apropriados com fornecedores de inteligência artificial. O objetivo é estabelecer condições específicas para proteção dos dados e adequação às políticas de compliance da empresa.

Essa preocupação tende a crescer conforme a IA deixa de ser usada apenas para tarefas simples e passa a receber documentos, imagens, estratégias de marketing e outras informações potencialmente sensíveis.

Questões legais ainda estão em construção

O mercado também precisa lidar com um ambiente regulatório em desenvolvimento. Direitos autorais, uso de imagem, propriedade sobre conteúdos produzidos por inteligência artificial, proteção de dados e responsabilidade por materiais gerados automaticamente estão entre os temas que acompanham a adoção das novas ferramentas.

Para empresas de publicidade, essas questões possuem impacto especialmente relevante porque campanhas frequentemente envolvem imagens de pessoas, propriedades intelectuais, marcas, músicas e materiais produzidos por diferentes profissionais.

A facilidade para gerar imagens, vozes e vídeos aumenta as possibilidades criativas, mas também exige novos procedimentos internos. Uma imagem tecnicamente convincente, por exemplo, não necessariamente está liberada para utilização comercial apenas porque foi produzida por um sistema automatizado.

Por isso, compliance e governança passam a fazer parte da discussão tecnológica. A pergunta deixa de ser apenas se a inteligência artificial consegue realizar determinada tarefa e passa a incluir em quais condições o resultado pode ser utilizado comercialmente.

Mercado de trabalho também começa a mudar

A transformação não ocorre somente nos softwares. A composição das próprias equipes está sendo afetada. Nasser relatou uma redução da participação de profissionais de entrada em algumas atividades e maior procura por pessoas experientes, capazes de avaliar e supervisionar os resultados produzidos rapidamente pelas ferramentas. (UOL)

Esse fenômeno cria um paradoxo para o mercado. Historicamente, profissionais iniciantes desenvolvem experiência realizando tarefas mais básicas antes de assumir responsabilidades maiores. Se essas atividades forem cada vez mais executadas por máquinas, empresas precisarão encontrar novas maneiras de formar os especialistas do futuro.

A questão é particularmente relevante em áreas como audiovisual, design, publicidade e produção digital, nas quais muitas tarefas operacionais funcionavam como uma etapa importante de aprendizado profissional.

O desafio para as empresas será utilizar a automação para aumentar produtividade sem eliminar os caminhos pelos quais novos talentos acumulam experiência.

Senso crítico humano ganha importância

Apesar do avanço tecnológico, Nasser considera que a decisão final continua sendo uma responsabilidade essencialmente humana. A velocidade de geração de conteúdo pode levar profissionais a aceitarem automaticamente resultados visualmente atraentes sem avaliar suficientemente sua qualidade, pertinência ou impacto. (UOL)

Nesse cenário, competências como análise, repertório, criatividade e tomada de decisão podem ganhar ainda mais importância. Saber utilizar uma ferramenta deixa de ser suficiente quando praticamente todos os profissionais possuem acesso a sistemas semelhantes.

A diferenciação passa a depender da capacidade de escolher o que deve ser produzido, avaliar o resultado, identificar problemas e entender se determinado conteúdo realmente atende aos objetivos de uma campanha.

A inteligência artificial, portanto, pode reduzir a quantidade de trabalho operacional ao mesmo tempo em que aumenta a responsabilidade de quem supervisiona o processo.

IA muda a lógica econômica da produção publicitária

Os ganhos mencionados pela WPP Production Brasil ajudam a mostrar por que a inteligência artificial desperta tanto interesse no mercado publicitário. Uma redução potencial de 50% no custo ou de 80% no prazo de determinadas etapas pode alterar significativamente a viabilidade econômica de campanhas, principalmente aquelas que exigem grandes volumes de conteúdo. (UOL)

Uma marca que anteriormente produzia poucas versões de uma campanha pode passar a trabalhar com centenas ou milhares de adaptações. Pequenos projetos também podem acessar recursos visuais que anteriormente exigiriam estruturas de produção mais caras.

Ao mesmo tempo, a redução do custo técnico não elimina necessariamente a importância do investimento criativo. Com ferramentas semelhantes disponíveis para muitas empresas, estratégia, originalidade e qualidade das decisões podem se tornar fatores ainda mais relevantes para diferenciar uma campanha.

Transformação está apenas começando

O cenário descrito por Rafael Nasser indica que a inteligência artificial está avançando rapidamente de uma ferramenta complementar para uma infraestrutura integrada à produção publicitária. A mudança envolve não apenas geração de imagens e textos, mas também planejamento, personalização, automação, gestão de dados e reorganização das equipes. (UOL)

Os ganhos de velocidade e custo podem ser expressivos, mas vêm acompanhados de novos desafios relacionados à supervisão humana, direitos, proteção de informações e formação profissional. O mercado terá de encontrar um equilíbrio entre explorar a capacidade produtiva da tecnologia e manter mecanismos de controle adequados.

Para o setor brasileiro de publicidade e produção audiovisual, a discussão já deixou de ser sobre quando a inteligência artificial chegará. A questão agora é como empresas e profissionais reorganizarão seus processos para trabalhar com ela, mantendo criatividade, segurança e responsabilidade enquanto a capacidade de produção cresce para uma escala antes impraticável.

Fonte principal

UOL Tilt — “Com IA, sai 80% mais rápido e 50% mais barato”, diz CEO da WPP Production

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