De agronomia à tecnologia: a virada aos 66

Nicola Valseri
Nicola Valseri
Alfredo Moreira Filho

O empresário que construiu uma trajetória de mais de quatro décadas na engenharia de campo, Alfredo Moreira Filho, protagonizou, aos 66 anos, um movimento que contraria a lógica convencional do mercado: deixar uma carreira consolidada em construção pesada para empreender em tecnologia da informação ao lado dos filhos. A decisão, tomada em 2013 após deixar a Construtora Barbosa Mello, não foi um ato de aposentadoria antecipada, mas o início de um novo ciclo profissional que redefine o que significa recomeçar tarde.

A história dele ilustra um fenômeno cada vez mais comum no mundo dos negócios: profissionais experientes que, em vez de desacelerar, aproveitam o acúmulo de relacionamentos e competências para abrir novas frentes em setores completamente distintos daqueles em que se formaram.

A engenharia como escola de gestão

Antes de entender a transição, é preciso reconhecer o que a engenharia oferece como base para o empreendedorismo. Um engenheiro agrônomo formado em Viçosa, que atuou em projetos na Amazônia, em colonização agrícola no Pará e em representação institucional no Congresso Nacional desenvolve, ao longo das décadas, um repertório que transcende a técnica: gestão de equipes em ambientes hostis, negociação com múltiplos stakeholders, leitura de cenários políticos e capacidade de operar sob pressão.

Essas competências, construídas em mais de quarenta anos de atuação, são exatamente as mesmas exigidas de um empreendedor de serviços de tecnologia. A diferença é que, enquanto um jovem empreendedor precisa aprender essas habilidades na prática e muitas vezes pagando caro pelos erros, o profissional maduro chega ao novo negócio já com o repertório formado.

A transição tardia como vantagem competitiva

Há um mito no mercado de que inovação é território exclusivo dos jovens. A realidade, contudo, mostra que negócios fundados por profissionais maduros apresentam taxas de sobrevivência significativamente maiores, porque o empreendedor experiente traz consigo uma rede de relacionamentos construída ao longo de décadas, reputação consolidada e capacidade de leitura de mercado que não se adquire em cursos.

No caso específico da transição da engenharia para a tecnologia da informação, o conhecimento técnico do setor é menos relevante do que a capacidade de estruturar operações, gerir equipes e negociar contratos. São competências que um engenheiro com trajetória em grandes empreiteiras, como Alfredo Moreira Filho, domina com naturalidade, mesmo sem formação específica na área digital.

O papel dos filhos na nova configuração

A decisão de empreender ao lado dos filhos Vitor e Caroline adiciona uma camada importante à análise. Não se trata apenas de uma transição de carreira individual, mas da construção de um projeto familiar em que a experiência do fundador se combina com a familiaridade dos herdeiros com o universo digital. Essa composição intergeracional permite que o negócio nasça já com uma governança mais estruturada, mitigando os riscos comuns em empresas familiares.

Alfredo Moreira Filho ilustra que a presença dos filhos também altera a dinâmica do empreendedorismo tardio: o fundador não precisa provar nada ao mercado, mas precisa construir um legado que faça sentido para a geração que dará continuidade ao projeto. Essa responsabilidade adicional tende a produzir decisões mais cautelosas e sustentáveis.

O que muda na mentalidade do empreendedor maduro?

Empreender aos 66 anos exige uma reconfiguração mental profunda. O profissional precisa abandonar a segurança de um salário executivo, aceitar a incerteza inerente ao início de um novo negócio e se submeter, novamente, à curva de aprendizado de um setor que não é o seu de origem. Essa disposição para recomeçar, depois de uma carreira bem-sucedida, é o que separa o empreendedor maduro do profissional que apenas espera a aposentadoria.

A diferença fundamental está na motivação: enquanto o jovem empreende por necessidade ou ambição, o maduro empreende por propósito. Essa distinção se reflete na qualidade das decisões tomadas ao longo da jornada e na capacidade de resistir aos momentos inevitáveis de dificuldade.

A lição para o mercado

A trajetória de Alfredo Moreira Filho desafia a narrativa dominante de que o empreendedorismo é um jogo para os jovens. Ela demonstra que o acúmulo de competências, relacionamentos e repertório de vida pode ser convertido, mesmo tardiamente, em vantagem competitiva significativa.

Para outros profissionais que se aproximam da chamada melhor idade, a lição é clara: o encerramento de um ciclo não precisa significar desaceleração. Pode ser, simplesmente, o ponto de partida para um novo tipo de empreendimento em que a experiência vale mais do que a energia, e em que o propósito orienta decisões que o mercado, sozinho, não saberia tomar.

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